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Selva e mercado: ética e sobrevivência

25/08/2008

                                      

Os mais amedrontadores animais da selva não passam de bichinhos de pelúcia se comparados a algumas empresas e profissionais que atuam no mercado. Em nome da sobrevivência e do interesse pessoal, atropelam a todos, esquecendo-se que, mesmo na mais agressiva mata, há leis espontâneas, respeitadas por todos. É uma consciência comum, de que viver é preciso, mas tem seus limites.                     

Parece que a expressão "lei das selvas" ficou fraca para qualificar a prática de alguns. Afinal, um leão só mata para comer. Não destrói a natureza, nem se preocupa em abater o maior número possível de animais, em nome de garantir o dia de amanhã. Pelo contrário, depois de satisfeito, deixa as sobras para os outros animais da cadeia alimentar. Há uma preocupação ecológica.

                        A natureza ensina lições importantes. Inclusive sobre ética e sobrevivência. E a história dos dinossauros é especial para isso.  Eles eram animais gigantescos (como algumas empresas e comparsas, políticos, governo e figuras que conhecemos pela TV) e dominavam a superfície da Terra. Seu desaparecimento é um mistério. Mas, seguramente, foram vítimas do tamanho exagerado e da forma de vida. Aqueles que não entendem e respeitam espontaneamente as leis da "vida", estão condenados ao fim. Sejam animais ou empresas, o caminho é o mesmo.

                       Afinal, o que há em comum entre empresas e animais? Que relações podemos estabelecer entre ética e sobrevivência? Para começar é preciso estabelecer diferenças. As empresas são organizações humanas, que têm a obrigação de aperfeiçoar o que observam do mundo animal. Mas o que se vê é um comportamento às avessas.

Espontaneidade e moralismo

                       

Assim como as empresas criaram programas ambientais e de qualidade total, a realidade aponta para a necessidade de construção de um código de ética empresarial. Algo mais abrangente do que uma norma imposta ou um conjunto de proibições hipócritas. Deve ter definições amplas, que envolvam as relações com órgãos do governo, distribuidores, consumidores, colaboradores internos, fornecedores, concorrência, comunidade e meio-ambiente.

                       Nesse sentido, o psicólogo Pierre Weil afirma que a organização pode optar por dois caminhos. Adota uma ética Espontânea, baseada na sabedoria e no amor, complementados pela razão, ou opta por uma ética moralista, fundamentada na coerção social, na obrigação ou dever. Conforme a opção, um conjunto de ações serão desencadeadas, determinando o modo de atuação da empresa.                        

Maniqueísmo, repressão, determinismo, sistemas fechados e mecanicismo são características das empresas que adotam práticas moralistas, sem no entanto serem éticas. Por outro lado, algumas instituições mantém relações transparentes, sempre abertas aos valores universais, respeitando o ecossistema, estimulando a liberdade de escolha e a responsabilidade.                        

Enquanto a ética moralista é repressiva, movida por dogmas sociais e religiosos, a Espontânea procura ser libertadora, respeitando o relativismo antropológico, que evita a dicotomia certo-errado. Os efeitos do tipo de opção ética que a empresa faz são sentidos em toda a organização, principalmente pelos empregados.

Enquanto a ética moralista gera recalque, neurose, constrangimento, tensão e muita culpa, a ética Espontânea desenvolve a tolerância, compreensão, empatia, alegria e uma saúde harmônica entre seus colaboradores. E mais, os moralistas estão sempre desconfiados, com medo, cheios de insegurança. Possuem personalidades rígidas, intolerantes e perseguidoras. Na outra ponta, a ética Espontânea permite o despertar de personalidades livres, pacíficas, confiantes e corajosas.

            Com tudo isso, se a empresa preferir agir de acordo com a Lei de Gerson, deve preparar-se para o pior. Organizações que desrespeitam parceiros, ignoram acordos e não possuem qualquer balizador ético, estimulam seus empregados a um comportamento semelhante. Cedo ou tarde, a instituição beberá o remédio que produziu.

Paulo Ricardo Silva Ferreira