Defender ou preservar?
Na guerra, defender está relacionado com a ação contrária ao ataque. O que nos remete a pensar em movimentos como de proteger (a si ou outros), impedir, proibir ou mesmo vedar. Existe um pensar estratégico no defender. Mas é um pensar egóico, nos identifica com nossas funcionalidades, mas, no entanto, também nos traz uma sensação de separação, de sofrimento e alienação. Quer dizer, é uma postura que nos suscita sofrimento.
Já quando estamos tratando do preservar vemos que este movimento não nos separa da idéia do ataque, o que se procura é evitar um confronto direto de força bruta com o adversário. Se pensarmos que o defender é uma seleção de escolha que nasce pela incapacidade (e o é: há um reconhecimento de que a outra parte está mais bem preparada para a vitória), já no preservar a mesma escolha está sendo empregada por uma capacidade (e o é: há um reconhecimento que nossa razão está mais bem preparada ou pode se preparar melhor para a vitória). Nas artes marciais podemos citar como caminho um dos caminhos para atingir a preservação o Tai Chi Chuan, por exemplo.
Muitos estrategistas militares tentaram resumir uma estratégia de sucesso em um conjunto de princípios. Os conceitos fundamentais para maioria das listas de princípios são: objetivo, ofensiva, cooperação, concentração (massa), economia, manobras, surpresa, segurança e simplicidade. Podemos observar que consciente ou inconscientemente, está segredado, cuidadosamente oculto da maioria das listas, uma posição mais efetiva de estratégia de não-combate. Acreditamos que isso esteja relacionado com o fato de que culturalmente o defender sempre foi ligado a uma visão de incapacidade de alcançar a vitória pelo confronto direto, logo uma estratégia dessa ordem obteve um valor de desprestígio sendo tomada apenas em situações caóticas.
O que acarreta que não existe um pensar imbuído de refletir a reação e conseqüências no outro diante do nosso ataque. É como se a competitividade fosse um desses jogos unilaterais. Um fazer sem efeitos colaterais. É evidente, o mesmo se dá, e com muito mais agressividade, no interior da empresa. Para cada postura estratégica (qualificação tecnológica, excelência em atendimento, metas, enfim...) há uma contrapartida que pode ser de defesa ou preservação por parte dos nossos colaboradores. E, via de regra, a organização também não tem um pensar imbuído de refletir a reação e conseqüências na sua equipe diante desse novo cenário.
As ferramentas de controle e processos que existem nas empresas foram desenvolvidas para que a instituição se defendesse dos erros que pudessem ocorrer internamente ou das invasões externas. Um sentimento que nasce com a Revolução Industrial e rompe o século XXI sendo à sombra do pensamento criativo, do medo às mudanças, a resistência as resignificações dos valores. Ganhamos várias, inúmeras, noves fora mil possibilidades de uma outra construção empresarial com o aparecimento da Era Digital. Mas, permanecemos com uma idéia egóica de realização que nos remete sempre a um pensar sem uma relação com o pensar do outro.
Uma caixa afetiva
Poderíamos relacionar várias ferramentas digitais, mas nesse momento nos ocorre de falarmos de uma em particular que é de uso comum: o e-mail. A existência de uma conta de e-mail é para transformar a informação mais ágil, efetiva, afetiva, econômica e com um número menor de riscos de seu entendimento. O e-mail preserva as partes envolvidas numa comunicação. E como para nós é complicado entender que amigos ou adversários merecem respeito, logo com o direito de se preservarem e de serem preservadas.
Entre outras tantas coisas o e-mail preserva porque podemos ler, refletir e obter maior entendimento do que se trata e diferentemente do que muitos possam pensar, é uma ferramenta afetiva. Repare que há pessoas que são tímidas e através do e-mail conseguem expressar sua afetividade, hora mandando pensamentos, hora trocando informações, hora escrevendo duas palavras: bom final de semana. Pessoas que morreriam de vergonha se tivessem que realizar isso diante de mais pessoas. Mas infelizmente, o e-mail na organização se transformou em objeto de defesa. Quer dizer, ele botou uma roupa nova, mas lá dentro ainda está vestido de memorando, de burocracia, de controle, de "agora que você assinou aí embaixo estou protegido".
Tecnologia não vem incorporada de mentalidade avançada. Tecnologia é tecnologia. Podemos tê-la e assim mesmo estar agindo lá como nossos ancestrais da Pedra Lascada. O mundo moderno não necessita de pessoas se defendendo, pois cria sempre este clima de culpabilidade. A organização moderna seja para seus movimentos de ordem interna ou em relação as suas conquistas no mercado, precisa estar imbuída sempre de uma reflexão do preservar. É isso que permite que a vitória não se transforme numa barbárie, mas sim num ato inteligente, de luz, de crescimento, de desenvolvimento tanto para quem ganha, quanto para quem perde. É importante vencer, mas o que permite continuidade às vitórias é Ser Humano.
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